Sonho.
J. vivia sob a designação de um severo e básico preceito cuja origem ele não saberia (porque não interessaria) dizer: “onde há escolha, há perigo.” A trilha mental dele desde que aprendeu a não pensar.
J. não podia por isso compreender logo o interesse do senhor W. por ele ao perguntar se estava tudo bem depois que o ajudou a se levantar. Hesitou o quanto pôde. Os interesses imediatos esgotaram a paciência do herdeiro.
J. retomou a rota predeterminada do seu percurso, sob a normalidade restabelecida que voltava a ser o disfarce perfeito. Mas o ar que respirava parecia temperado naquela tarde que produzia um doce torpor.
J. assumiu maquinalmente o posto que sempre estava à espera dele à mesa, jantou sem dar conta, assomou à liturgia que antecedia o chamado do sono, tudo ainda como se uma estranha nota musical estivesse ressoando na sensibilidade dele.
J., como de costume, em sonho voltou ao dia. No entanto, desta vez, havia um tipo de interferência na transmissão dos comandos internos com a realização automatizada das imagens oníricas. Era o sorriso calado da senhorita K.
Fotografia: Robert Doisneau

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