domingo, 23 de dezembro de 2018

N.

N. é o narrador que até alguns dias atrás pretendia ser onisciente nesta história. Eu pensava que ele estivesse bem intencionado com o enredo, que tinha zelo, atenção e algum cálculo pelo respeito devido aos envolvidos.
N. talvez tenha ido longe demais ao fustigar K., J. e W. com características tão moralmente rígidas, tão melifluamente ensimesmadas e, por fim, tão humanamente insensíveis.
N., parece claro, pode estar um pouco em cada um deles e nela, traços, contudo, indistinguíveis a olho nu; na multiplicidade de determinantes, insiste N. na impressão de que comanda mais do que está envolvido.
N. parecia ter mais escrúpulos quando foi selecionado e assumiu as atribuições relativas à função para a qual foi contratado. É na luz da prática que as sombras da presunção de virtude se desfazem.
N. foi, numa palavra, prepotente, mas encontrará o limite que merece. N. estava prestes a chegar ao escritório onde trabalha nesta história quando sofreu um grave infarto. Foi internado e registrado no hospital pelo prenome: E.
Fotografia: © Ben Zank

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