domingo, 23 de dezembro de 2018

O senhor W.

O senhor W. é, nesta ordem, herdeiro, escroque e arrogante. A forma social que o mima e ao mesmo tempo o seduz é a da sagrada propriedade privada, baluarte da injustiça elevada a norma jurídica.
O senhor W. faz questão de conhecer pessoalmente alguns dos inquilinos e inquilinas, empregados e empregadas que tem. Trata-se de um desejo incontido de fisgar o sentimento de submissão na expressão alheia.
O senhor W. entende que seja um dever moral defender (mas, quando achar conveniente, não seguir) princípios conservadores de manutenção da ordem e dos bons costumes.
O senhor W. dorme como bebê, e, muitas vezes, também porque muito bebe. Sonha com frequência que está sendo roubado, por isso desenvolveu especial fixação por cadeados, fechaduras, trancas e cofres.
O senhor W. encaminhava-se para um dos muitos bancos que frequenta quando, ao descer do carro, assustou-se com um rapaz que caía na calçada à sua frente. Foi a primeira vez que ajudou a um desconhecido. Um rapazola chamado J.
Fotografia: © Timo Saarelma

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