Memória.
A senhorita K. soube que a senhora A. cantava na juventude,
por isso o marido dela, relembra, a cada visita que faz à mulher, algumas das
canções preferidas dela. Ele tem esperança de que ela o ouça.
A senhorita K. ouviu que o senhor E. gostava de jogos de
tabuleiro, plantas e gatos, mas ainda não sabia como acordou naquele hospital.
Operado, ainda não tinham procurado por ele. Nele, coração e memória estavam
unidos.
A senhorita K. descobriu enternecida que I. gostava de olhar
o céu noturno para se acalmar, o que devolvia a ele a sensação de pertencer a
algo maior, para ele, ao mistério e à sabedoria da natureza.
A senhorita K. cantava no íntimo, plantava gratidão com os
gestos e com as palavras e era toda ela uma natureza de introspecção sem mágoa
ou ressentimento.
A senhorita K. saiu do trabalho com esses fiapos de história
na lembrança e, ao tomar o ônibus que a levaria de volta a casa, notou que
conhecia o moço ao lado do qual se sentou. Era J.
Fotografia: André Kertész.

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