domingo, 23 de dezembro de 2018

Memória.


A senhorita K. soube que a senhora A. cantava na juventude, por isso o marido dela, relembra, a cada visita que faz à mulher, algumas das canções preferidas dela. Ele tem esperança de que ela o ouça.

A senhorita K. ouviu que o senhor E. gostava de jogos de tabuleiro, plantas e gatos, mas ainda não sabia como acordou naquele hospital. Operado, ainda não tinham procurado por ele. Nele, coração e memória estavam unidos.

A senhorita K. descobriu enternecida que I. gostava de olhar o céu noturno para se acalmar, o que devolvia a ele a sensação de pertencer a algo maior, para ele, ao mistério e à sabedoria da natureza.

A senhorita K. cantava no íntimo, plantava gratidão com os gestos e com as palavras e era toda ela uma natureza de introspecção sem mágoa ou ressentimento.


A senhorita K. saiu do trabalho com esses fiapos de história na lembrança e, ao tomar o ônibus que a levaria de volta a casa, notou que conhecia o moço ao lado do qual se sentou. Era J.

Fotografia: André Kertész.

Nenhum comentário:

Postar um comentário