Evaporação.
A senhorita K. voltou entre pensativa e alegre para casa, suspeitava que era porque uma vez mais tinha feito um benefício a alguém, afinal, ela também tinha distinguido o sorriso espiritual do distraído rapaz.
A senhorita K. deslizou até o frugal quarto que ocupava no primeiro andar de um antigo e modesto edifício. Tudo sempre no lugar, sempre limpo, quase sempre sem uso, e milimetricamente organizado.
A senhorita K. colocou água no fogo para o chá que costumava tomar todos os dias antes de ir se deitar. Enquanto esperava a fervura, entregou-se inesperadamente a pensamentos inéditos para ela.
A senhorita K. parecia hesitar na penumbra de impressões fora do lugar, semelhantes à poeira que ela sistematicamente livrava o mobiliário quando fazia a própria faxina.
A senhorita K. buscava um nome para a imagem que modificou a rotina implacável dela. Não sabemos se como tentativa de alívio ou de intensificação, mas aquela procura não parecia sensata.
A senhorita K. esteve assim mergulhada em si mesma depois de muito tempo da água já fervida e evaporada. Estava perturbada. Algo que jamais tinha acontecido com ela e, menos ainda, no sagrado momento antes de dormir.
Fotografia: Lusha Nelson.

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