J., um rapazola.
J., um rapazola, desde muito cedo, foi programado para não pensar. O pouquíssimo que aprendeu a solicitar era invariavelmente oferecido de mão beijada pela família.
J. não precisava ouvir, não precisava falar, e jamais precisou pensar no que quer que fosse. Dormia, evidentemente; comia, silenciosamente; vegetava, religiosamente.
J. frequentava a sociedade, a escola e a igreja com um calculado (não por ele, claro) aspecto externo de normalidade, por isso jamais suspeitaram da conformação interior dele. Um tino cego, mas providencial.
J. corresponde rigorosamente a um andamento inercial da existência, sem propriamente escolher, gostar, preferir ou solicitar, está disposto e indisposto indistintamente, como um objeto esperando pelo uso.
J., em certa ocasião, insinuou um desvio. Tropeçou e, pela primeira vez, deu-se conta de uma estranha pessoa por perto. Mesmo com a boca trancada, foi possível discernir o fio de sorriso nos lábios da senhorita K.
Fotografia: Ahmad Omar
domingo, 23 de dezembro de 2018
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