sábado, 29 de dezembro de 2018

Mudança.


“N. foi socorrido a tempo”, disse o chefe da equipe médica que o operou. Os exames indicaram bons antecedentes de saúde, e o resquício de juventude contribuiu com o êxito da intervenção.

N. ficará em recuperação e observação durante o próximo mês, precisará observar um rigoroso regime de mudança de hábitos, a começar pela desaceleração do ritmo de vida.

N. terá mais tempo, por isso, do inicial sossego, vai passar rapidamente ao tédio, logo em seguida ficará ansioso, depois depressivo, solitário e angustiado. Mas o leitor e a leitora não precisam ficar preocupados.

N. passará pelo tortuoso mas necessário rito de desestupidificação, o que inclui, sobretudo, desligar-se dos determinantes materiais e ideológicos de uma vida ditada pela submissão, pelos automatismos e pela falsificação.

N. mudará, progressivamente, o próprio ponto de vista a partir do qual também modificará os juízos torpes com os quais selava uma opinião excessivamente parcial da vida. N. vai encontrar-se cada vez mais em E.


Fotografia: Robert Doisneau.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Imponderável.


O senhor W. tomou um caminho desconhecido sem perceber, levado pelo acaso, que ele sempre tentava combater, mas inutilmente. A mão invisível de uma ideia fixa conduzia o fio principal do que passou a sentir.

O senhor W., durante o severo verão que marcou a passagem dele pelos 30 anos, viveu a primeira vertigem da juventude. O sentido de orientação tão certo até ali perdeu o significado repentinamente. Viu-se à deriva.

O senhor W. jamais reconheceria que estava apaixonado, mas parece ter sido exatamente esse aquele caso; aquilo para ele representava mais uma queda, porque a vontade dele passava agora longe das velhas manias.

O senhor W. foi subtraído da monotonia e alçado ao patamar de uma alegria nova para ele. Esforçou-se inutilmente por recobrar o domínio sobre o ritmo do coração que, descompassado, entregava-se àquela turbulência desejada.


O senhor W. conheceu inebriado o modo peculiar e telúrico com que a noite podia se revestir em dia, conduzido pela força que ao lado dele vigia como a intensidade solar de um feliz encontro.

Fotografia: Tanu Kallio.


terça-feira, 25 de dezembro de 2018



Acaso.


J. (vou me referir a mim mesmo na terceira pessoa) gostaria de ser outra pessoa, como ficou sugerido pelo que ele disse (ou melhor, pelo que eu disse) sobre a origem que o determina.

J. está agora esperando o momento de descer para jantar, antes de sair para o costumeiro passeio noturno pela cidade. A cada dia, sem ser rigoroso, escolhe um lugar para descobrir ou redescobrir ou apenas lembrar-se.

J. adotou esse costume depois de identificar-se com o personagem de um  dos muitos romances que lê em busca de desviar-se de quem é, um tipo de fuga programada, mas sem resultados efetivos.

J. comeu pouco, vestiu-se e saiu. Uma vez na região escolhida, procurou ler o lugar pelas ruas, pelas fachadas, imaginou que tipo de pessoas transitariam por ali e quis ser uma delas.

J. andou por mais de uma hora, quando decidiu tomar um outro ônibus desconhecido e, no ponto seguinte, viu entrar um rosto conhecido que veio sentar-se ao lado dele.


Fotografia: Gerard Castello-Lopez


domingo, 23 de dezembro de 2018

Memória.


A senhorita K. soube que a senhora A. cantava na juventude, por isso o marido dela, relembra, a cada visita que faz à mulher, algumas das canções preferidas dela. Ele tem esperança de que ela o ouça.

A senhorita K. ouviu que o senhor E. gostava de jogos de tabuleiro, plantas e gatos, mas ainda não sabia como acordou naquele hospital. Operado, ainda não tinham procurado por ele. Nele, coração e memória estavam unidos.

A senhorita K. descobriu enternecida que I. gostava de olhar o céu noturno para se acalmar, o que devolvia a ele a sensação de pertencer a algo maior, para ele, ao mistério e à sabedoria da natureza.

A senhorita K. cantava no íntimo, plantava gratidão com os gestos e com as palavras e era toda ela uma natureza de introspecção sem mágoa ou ressentimento.


A senhorita K. saiu do trabalho com esses fiapos de história na lembrança e, ao tomar o ônibus que a levaria de volta a casa, notou que conhecia o moço ao lado do qual se sentou. Era J.

Fotografia: André Kertész.

Incumbência.

W. não quis falar por si próprio porque confessou-me que estava bem representado pelas palavras de N. Por isso, deixou-me a incumbência de dar continuidade à história. Ele foi generoso comigo.
W. era de fato ocupado, mas, já percebemos, desocupado de si. E teve grande empenho, inclusive material, de tornar essa uma lei de reconhecimento do êxito geral. Todos à volta dele o admiravam pelo que tinha se tornado.
W. esteve hesitando entre permitir-se voltar à lembrança de J. e seguir adiante com os afazeres dos negócios que gere. Insinuava-se, pela porta trancada da sensibilidade dele, um estranho afeto.
W. adquiriu (verbo ignóbil), como investimento, uma área comercial até então distante do campo de interesse imediato dele, um hospital. Participa também do capital que mantém um jornal e uma editora.
W. teve vontade de encontrar paz, por isso mergulhou fundo nas contas, nos números e nas cifras, arrancou algum sossego da frieza estática da matéria contábil e dos poderes encantatórios das finanças.
Fotografia: Jovan Dezort.

Atrevimento.

J. sou eu e esperei uma semana para voltar a aparecer nesta história. Sou paciente por convicção e tímido por natureza, mas sinto que tenho um papel a desempenhar no enredo, por isso tomo a palavra. O senhor N. que me perdoe.
J. é meu nome, meu prenome é T., isso não muda nada, mas me dá a sensação de maior familiaridade com quem preciso estar próximo agora para tornar minha história um pouco mais simpática e mais verossímil.
J. vem da pior parte da minha família, mas isso não me afeta mais do que o necessário para saberem que tenho uma boa parte de mim mesmo que combato, tanto quanto desprezo esse ramo de que sou decorrência.
J., o mais longínquo que lembro dos meus antepassados, era proprietário rural, o que quer dizer que não vivia tão mal quanto no resto do país. A terra é, portanto, um dos apelos mais imediatos quando ouço esse J.
J. representa para mim um desafio, ao mesmo tempo que uma cicatriz. Se tenho de insistir porque sou muitas vezes inábil, devo isso a J., mas prossigo porque, suspeito, ainda alimento alguma simpatia por T.
Fotografia: © Stephan Wolf

Solicitude.

A senhorita K. é, como seria possível supor, enfermeira e assume turnos mais longos porque sente-se naturalmente mais disposta e disponível que os colegas.
A senhorita K. cuida atualmente de três pacientes em condições muito diferentes: A., uma mulher de meia idade em coma; E.(!), um senhor operado do coração; e I., um rapaz acometido por um câncer no fígado em estágio avançado.
A senhorita K. ouve as histórias dos pacientes com a solicitude de uma parente próxima. Sabe da mulher pelo marido; conhece todas as preocupações e remorsos do cardíaco e consola as lamúrias do rapaz.
A senhorita K., sabemos, tem todos os horários, todas as prescrições e todos os cuidados necessários a cada paciente anotados e disponíveis na mente, nada, portanto, escapa à diligência com que trabalha.
A senhorita K., depois de ontem, sente-se transbordando, mas não sente que precisaria contar o que sente, inclusive porque não sabe, ela própria, que sente o que sente. Por isso, o narrador, insinua por ela o que ela sente.
Fotografia: © Blixxa Artworx