segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Ritos.


O senhor W. viu a manhã de um sábado duradouro irromper nos horizontes daqueles dias. Nem lembrava mais a gasta ideia de uma longa viagem que alimentou fazer.

O senhor W. estava instalado na mudança quando voltou-se para o espelho interior. Ele próprio era o percurso de onde não se deu conta da partida, senão depois de sentir-se em plena travessia.

O senhor W. jamais subscreveria essas ideias, mesmo quando jovem esteve à beira do abissal jogo do amor. Rugia em algum lugar dentro dele um temor de gostar demais da metafísica dos labirintos, por isso negava-se a deriva.

O senhor W., no entanto, passou por todas as etapas da ilusão de ter-se sob controle. Gasoso, líquido e evanescente, às vezes simultaneamente, outras combinadas, raramente exclusivas.

O senhor W. viu cumprirem-se os ritos sacramentais do próprio casamento convencido de que cumpria um dever existencial tão imprescindível quanto a garantia das posses que alimentava e praticava desde cedo.


Fotografia: Nicoleta Gabor.


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