segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Ritos.


O senhor W. viu a manhã de um sábado duradouro irromper nos horizontes daqueles dias. Nem lembrava mais a gasta ideia de uma longa viagem que alimentou fazer.

O senhor W. estava instalado na mudança quando voltou-se para o espelho interior. Ele próprio era o percurso de onde não se deu conta da partida, senão depois de sentir-se em plena travessia.

O senhor W. jamais subscreveria essas ideias, mesmo quando jovem esteve à beira do abissal jogo do amor. Rugia em algum lugar dentro dele um temor de gostar demais da metafísica dos labirintos, por isso negava-se a deriva.

O senhor W., no entanto, passou por todas as etapas da ilusão de ter-se sob controle. Gasoso, líquido e evanescente, às vezes simultaneamente, outras combinadas, raramente exclusivas.

O senhor W. viu cumprirem-se os ritos sacramentais do próprio casamento convencido de que cumpria um dever existencial tão imprescindível quanto a garantia das posses que alimentava e praticava desde cedo.


Fotografia: Nicoleta Gabor.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Aprendiz.


N. ou E., até onde eu iria se pudesse sair agora deste hospital? Ou talvez eu deva antes me perguntar para onde, em que sentido caminharia? Meus passos me ensinariam o melhor caminho?

N. ou E., esse pôr-do-sol me faz traz sossego, mesmo sob a dúvida e essa falta que se tornou o passado do qual não me lembro. Eu talvez descubra se experimentar o mundo de novo.

N. ou E., pelo menos sobrou essa fração que são meus nomes. Como esse resíduo de luz, hesitante vermelho alaranjado que tinge o pedaço de mundo para o qual olho a partir dessa sacada.

N. ou E., sei ou sinto que tampouco aquele passante ali em baixo poderia dizer de si mesmo muito mais do que alguns lamentos, outros ressentimentos, poucas alegrias e muitas dúvidas.

N. ou E., talvez eu possa contar uma história mesmo sem lembrar do passado, talvez mesmo porque não estou particularmente preocupado com meu destino mais do que recuperar-me dessa cirurgia.


N. ou E., gostaria tomar o mesmo ônibus que aquela moça acaba de tomar. E sei que ao entrar, quando for minha vez, estarei pronto para inventar uma história pelos fragmentos das vidas alheias que observarei.

Fotografia: Rodney Smith


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Compleição.


J., de mim não peço mais do que alguns instantes, porque compreendo-me consanguíneo de momentos, não posso dizer sem desviar da verdade que minha história poderia desmentir isso. São meras zonas seguras de reflexo.

J., o peculiar refrigério que acompanha minhas palavras talvez perturbe a atenção alheia, o que ensina meus termos às esperanças injustificadas do que podem pretender atingir em mim.

J., tenho um secreto zelo pelas minhas mazelas e não vejo porque precisaria disfarçá-las se tão desimportante e tíbio meu porte caminha em desalinho entre o anonimato e a hesitação.

J., sou tradução em quizília das faltas que não pude cometer, da vergonha de cuja explicitação tenho sido poupado, do medo que não tinge meu solo com a rubra marca da impossibilidade.


J., sou mantido limpo, ordenado e insatisfeito no íntimo, como se eu fosse um território de segurança ou a o tempo fixado de um agravo. Por isso, nesse momento em que seu coração quer cantar, falta-lhe a dose de delírio.


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Constituição.


A senhorita K., na juventude, cismava o que não devia e ensinou ao tempo dela uma coleção de glórias à maneira de cronistas cujo empenho e caligrafia, respectivamente, jamais finda e sempre melhora.

A senhorita K., no carnaval de mistérios involuntários, arrematou o lirismo lhano no sutilíssimo leilão da infância. A delícia do protocolo foi a esperança de que prescindiria de um campo aberto de possibilidades.

A senhorita K. foi murmúrio, vento e jade; canto silente, fé festiva e alma espraiada. A senhorita K. alimentou um sol sem brilho, mas ofuscante na obscuridade, esteve entre escultura e música como sugestão.

A senhorita K. extraiu comoventes e ingênuas filosofias da natureza lendo a si mesma como fábula. O orvalho como ética da fluidez, as águas dos rios como estética da persistência e o solo como política da acolhida.

A senhorita K., no entanto, careceu, para a iminência daquela circunstância imediata de uma lógica menos pétrea, menos mineral, mas contrapunha com a arte de ser quem começava a se tornar, adensamento e beleza. 

Fotografia: © Blixxa Artworx