sábado, 9 de março de 2019

                                                           Fotografia: Vivian Maier

Umas botas.

Aos 4 anos, ganhei um par de botas. No início, fiquei entusiasmado mais pela expressão de alegria dos adultos à minha volta do que pelo presente. Não sabia do que se tratava. Depois que me foram calçadas, pareceram incômodas, mas aos poucos fui descobrindo os poderes magníficos delas.

Eu ainda estava muito longe de saber que eram botas ortopédicas, mas o brilho, o cheiro de couro, da borracha e a maciez da palmilha compensavam de longe qualquer preocupação clínica àquela altura. Sabia menos ainda, e por isso não havia preocupação, que eu tinha pés de algum modo fora dos padrões de normalidade.

Vieram em uma caixa branca, como costuma ser, e lembro-me de guardá-las, durante muito tempo, naquela mesma caixa, cuidadosamente preservada e bem perto da minha cama. Às vezes, acordava durante a noite e tateava em busca da caixa para conferir se elas continuavam ali, intactas, fiéis companheiras, vigiando meu sono.

O momento de calçá-las era, para mim, a consagração das minhas expectativas e a compensação da minha paciência. Não mais apenas confirmar que continuavam a acomodar bem meus hesitantes passos, não mais brincar de preparar-me para sair, mas sair de fato, garboso e elegante como os homens devem ser no momento de ganhar o mundo.

Eu, praticamente, flutuava com elas, talvez até, nas minhas pueris fantasias, considerasse a hipotética satisfação do solo de ser meu caminho pisados com pés tão belamente ornados, protegidos e equipados. Eu as chamava “botas lindas”, um epíteto cunhado com a precisão e honestidade da infância. Nem as seduções das palavras castiças poderiam ter me dissuadido da minha convicção de estar bem calçado.

Ter irmãos, às vezes, é um esporte perigoso, sabemos, sobretudo quanto se tem tesouros como eu tinha aquelas botas. E eu já tinha uma irmã e um irmão. Claro que devem ter ficado curiosos de “brincar” com minhas superbotas, mas por um tipo de precaução providencial que protege as crianças, não trago nenhuma lembrança de conflitos ou de mágoas relativas ao ramo dos nossos calçados.

Sempre fui franzino, mas com aquelas botas eu sentia ter algum poder sobre os descalços e desprevenidos. Cheguei a planejar algumas ameaças como vinganças de antigos desafetos, mas recuei de pena das minhas indefesas vítimas, por alguns nascentes escrúpulos morais e, sobretudo, por zelo com a integridade das minhas queridas botas.

Enquanto pude usá-las, foram para mim como que uma parte vital do meu corpo. Mas assim como chegaram, devem ter partido, porque não tenho lembranças do fim delas, mas ainda sinto o cheiro, o vigor, a beleza e a potência do meu primeiro kichute, implacável no futebol e nas corridas, irresistível nos bailinhos diante das garotas.  


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Territórios.


N., sei de mim que não sei sobre minha própria história, mas a tenho, em algum lugar, e está como que empacotada e à deriva no tumulto que se tornaram meus pensamentos. Resta-me esse fiapo de ordenamento pelas palavras.

E., esse prenome parece tão postiço quanto meu rosto no espelho. Ele nada comanda, porque nada parece a mim querer dizer. Não passa de um rótulo em um frasco lacrado cheio de dúvidas e ideias circulares.

N., doem-me mais as amarras desse confinamento do que meu corpo marcado pelas rupturas da antiga conformação. Sou refém de mim mesmo, trancado nesta penumbra que me separa do futuro imediato, lá fora.

E., decido agora partir, fugir. Há no fim deste corredor uma porta para as escadas de incêndio. Ah, esse ar fresco me parece familiar e particularmente bom. O caminho já me mostra mais do que os fios de sutura poderiam.


N., então este é o lugar de onde, parece, saí para entrar no hospital? Esta foi a moldura das minhas insuficiências, inclusive as cardíacas? Este também será, a partir de agora, o território no qual reinventarei uma existência menos anônima.

Fotografia: Bedrich Grunzweig


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Inconsolável.


J., estou entre castigar minhas tolas pretensões e escalar meus receios de enfrentar desejos que sempre são unilaterais. As fronteiras da minha confusão forçam os limites do tolerável. Sinto náuseas.

J., tenho represado acontecimentos em mim como se as pessoas e o mundo obedecessem às minhas veleidades, a terra onde minhas procuras encontram asilo é estrangeira, e não há mapa que guie meus passos.

J., não sabem que não sei o que significa ouvir, ou talvez poucos saibam que essa palavra e os sentidos a ela ligados tenham em mim um sentido particular. Meus arredores são feitos de imagens, odores e de encontros.

J., suportam-me como uma criatura de gestos excessivos e ideias excêntricas, minha própria lei oscila e hesita como uma ponte de barris. A crônica da minha vida tem sido uma comédia de erros.


J., às vezes, sou apenas uma aparição, e lamento não me fazer compreender. Por que, afinal, aquela moça ao alcance do meu calor sentiu frio? Por que não pude evitar?


Fotografia: Jaroslav Kucera



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Reversão.


H. é membro de uma facção da luta armada (F.L.A.) contra a atual junta de energúmenos que governa o país. Ficou responsável pela execução de um ato de contestação que envolveria muitas pessoas.

H. esteve de tocaia durante muitas semanas, estudando percursos, a movimentação de pessoas pela redondeza, a intensidade do tráfego, os horários do comércio e, principalmente, a vigilância da polícia.

H. fez parte dos jovens que foram impedidos de desejar para si próprio um trabalho menos arriscado. Para que a conta do fim do mês fechasse, foi aceitando tudo o que aparecia, até que apareceu uma causa.

H. preparou-se, naquela tarde, e depois de conseguir sinal verde do movimento, tomou de assalto um dos ônibus que serve, sobretudo, a funcionários do hospital do senhor W.

H., no momento em que entrava no ônibus, topou com uma moça que não pôde descer, porque ele a impediu. A senhorita K. recuou assustada. H. advertiu a todos que se tratava de um sequestro em nome da F.L.A.



Daido Moriyama.



domingo, 3 de fevereiro de 2019

Proximidade.


A senhorita K. colheu com mãos de calígrafa o sentimento de satisfação que surgiu na soleira do espírito dela. A alegria e o encanto floresceram no jardim do coração sem esperar por estação mais propícia.

A senhorita K. cumpriu a travessia daquele momento embalada pela ternura vertida em suaves movimentos ao ritmo de um corpo que começava a se renovar e sentia isso. Um inesperado ar renovou nela vigor e alento.

A senhorita K. sentia as palpitações das palavras que seria capaz de dizer e de ouvir, mesmo que se mantivesse em incômodo silêncio. Pela quietude recíproca, ela apostaria que o mesmo se passava com J.

A senhorita K. juraria distinguir até o odor da transpiração amena do homem ao lado dela, compunha uma variedade de hipóteses para ter motivos para dirigir-se a ele.

A senhorita K. foi coagida pela inércia do receio, a se levantar, acionar o sinal de solicitação de parada e descer do ônibus sem sequer ter podido levantar o olhar no momento em J. procurou os olhos dela.


Fotografia: Anton Giulio Bragaglia.