Projeto
Houve um momento a partir do
qual senti em algum lugar atrás dos meus olhos que passou a ter vigência entre
minhas ideias um sutil, involuntário e persistente projeto de sofrimento
pessoal.
As experiências de dor que em geral pareciam me tomar de assalto provocaram um transbordamento que, uma vez arrefecido como lava, consolidou-se em mim como expectativa crescente e, mais adiante, como solicitação inconsciente.
As experiências de dor que em geral pareciam me tomar de assalto provocaram um transbordamento que, uma vez arrefecido como lava, consolidou-se em mim como expectativa crescente e, mais adiante, como solicitação inconsciente.
Recebi como se fosse um tipo
de animal de estimação, ainda filhote exigia de mim cuidados modestos e não
tomava mais espaço mental do que minhas muitas dúvidas e tímidos desejos.
Jovem, tornou-se robusto,
ágil e cheio de astúcias, qualidades proporcionais à dedicação que roubava
minha atenção das exíguas, mas presentes, chances de considerar alegrias,
distrações e mesmo prazeres.
Adulto, passou a recusar o
eufemismo atenuante de animal de estimação para exigir a de algo mais severo,
intransigente e intempestivo: tormento, tempestade, turbulência como a própria
pele sob a qual hesito.
Aquele projeto deixou de me
habitar, porque o eu tornado residual passou a ser hóspede, ou um tipo de incômodo
apêndice, daquele agora complexo e autônomo organismo.
Sem devorar quilos de chances de satisfação a fúria dele turva minhas perspectivas as mais secretas e cobra o dízimo do prenúncio de fracassos reeditados, como um torpor ancestral.
Sem devorar quilos de chances de satisfação a fúria dele turva minhas perspectivas as mais secretas e cobra o dízimo do prenúncio de fracassos reeditados, como um torpor ancestral.
Fotografia: Cengiz Yavuzak

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