quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Vocabulário

Acho francamente que deveríamos evitar o vocabulário bélico da direita. Portanto, evitar falar em alvos, em argumentos e ideias como armas, em estratégias, em táticas, em alarmes, em alertas, batalhão, militância, ataques e afins.

Vamos sendo constrangidos a participar do jogo da direita e se não refletimos, acabamos capturados querendo, daqui a pouco, também ter porte de armas e também liquidar o outro lado.

Tarefa dificílima, mas sem isso seremos cada vez mais reféns e por isso derrotados, mas agora internamente, repetindo aquilo que em tese pretendíamos combater. Interromper a reprodução da violência é imprescindível.

O capital age por fantoches sem conteúdo, por avatares, isso quer dizer que visar o personagem achando que combatemos o espírito é exatamente como age a ave que antes da plantação enxerga e teme o espantalho.

O espectro é incorpóreo, material apenas na destruição, visível somente pelas sombras difusas e sinistras que projeta sobre a vida de cada pessoa e de todo o planeta. Qualquer “ataque” é alimento que o fortalece.

Fotografia: © Anakin Céu.



terça-feira, 13 de novembro de 2018

Projeto

Houve um momento a partir do qual senti em algum lugar atrás dos meus olhos que passou a ter vigência entre minhas ideias um sutil, involuntário e persistente projeto de sofrimento pessoal. 

As experiências de dor que em geral pareciam me tomar de assalto provocaram um transbordamento que, uma vez arrefecido como lava, consolidou-se em mim como expectativa crescente e, mais adiante, como solicitação inconsciente.

Recebi como se fosse um tipo de animal de estimação, ainda filhote exigia de mim cuidados modestos e não tomava mais espaço mental do que minhas muitas dúvidas e tímidos desejos.

Jovem, tornou-se robusto, ágil e cheio de astúcias, qualidades proporcionais à dedicação que roubava minha atenção das exíguas, mas presentes, chances de considerar alegrias, distrações e mesmo prazeres.

Adulto, passou a recusar o eufemismo atenuante de animal de estimação para exigir a de algo mais severo, intransigente e intempestivo: tormento, tempestade, turbulência como a própria pele sob a qual hesito.

Aquele projeto deixou de me habitar, porque o eu tornado residual passou a ser hóspede, ou um tipo de incômodo apêndice, daquele agora complexo e autônomo organismo.

Sem devorar quilos de chances de satisfação a fúria dele turva minhas perspectivas as mais secretas e cobra o dízimo do prenúncio de fracassos reeditados, como um torpor ancestral.

Fotografia: Cengiz Yavuzak
first life

Alguns internautas old school referiam-se ao tempo em que se ficava na internet como sendo uma “second life” (a partir do nome de um jogo virtual). Vaticínio que rapidamente avançou para uma “first life”.

A “second” é agora o restante do tempo, comprimido entre espera e sonambulismo, às vezes depressivos, às vezes de ansiedade, outras vezes ambos simultaneamente, de voltar à “first”. Uma verdadeira adicção contemporânea. 

Fala-se também (aprendi recentemente com um amigo) que estar conectado à internet é estar “onlife”. Ou seja, offlife é um tipo de morte virtual, depois, claro, de ser (quase) morte de fato para os adictos.

Esse cenário de fantasia sinistra se completa com a ideia bastante disseminada de que o que não está no google não existe. Essa fé faz legiões entre pessoas para as quais a palavra pesquisa não passa de uma má tradução para search.


Nesse ritmo e com esse horizonte, a ideia de vida social se reduz a um permanente jogo entre avatares virtuais, e a ideia de tempo é constrangida à  eficiência ou fracasso entre um comando e o efeito que produz no jogo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

“Perseverança, concentração, dedicação, disciplina, esmero, acribia, tirocínio e elegância em qualquer área do saber, seja popular seja erudito, deveriam deixar de ser apenas palavras vazias negligenciadas do discurso dito escolar para se tornarem decisões, atitudes, práticas e estrelas-guia no céu e na terra de cada aprendiz. Qualquer resultado daí proveniente sempre será providencial e surpreendentemente salutar para todos e todas.”


[Yu Tsun]