Umas botas.
Aos
4 anos, ganhei um par de botas. No início, fiquei entusiasmado mais pela
expressão de alegria dos adultos à minha volta do que pelo presente. Não sabia
do que se tratava. Depois que me foram calçadas, pareceram incômodas, mas aos
poucos fui descobrindo os poderes magníficos delas.
Eu
ainda estava muito longe de saber que eram botas ortopédicas, mas o brilho, o
cheiro de couro, da borracha e a maciez da palmilha compensavam de longe
qualquer preocupação clínica àquela altura. Sabia menos ainda, e por isso não
havia preocupação, que eu tinha pés de algum modo fora dos padrões de
normalidade.
Vieram
em uma caixa branca, como costuma ser, e lembro-me de guardá-las, durante muito
tempo, naquela mesma caixa, cuidadosamente preservada e bem perto da minha
cama. Às vezes, acordava durante a noite e tateava em busca da caixa para
conferir se elas continuavam ali, intactas, fiéis companheiras, vigiando meu
sono.
O
momento de calçá-las era, para mim, a consagração das minhas expectativas e a
compensação da minha paciência. Não mais apenas confirmar que continuavam a
acomodar bem meus hesitantes passos, não mais brincar de preparar-me para sair,
mas sair de fato, garboso e elegante como os homens devem ser no momento de
ganhar o mundo.
Eu,
praticamente, flutuava com elas, talvez até, nas minhas pueris fantasias,
considerasse a hipotética satisfação do solo de ser meu caminho pisados com pés
tão belamente ornados, protegidos e equipados. Eu as chamava “botas lindas”, um
epíteto cunhado com a precisão e honestidade da infância. Nem as seduções das
palavras castiças poderiam ter me dissuadido da minha convicção de estar bem
calçado.
Ter
irmãos, às vezes, é um esporte perigoso, sabemos, sobretudo quanto se tem
tesouros como eu tinha aquelas botas. E eu já tinha uma irmã e um irmão. Claro
que devem ter ficado curiosos de “brincar” com minhas superbotas, mas por um
tipo de precaução providencial que protege as crianças, não trago nenhuma
lembrança de conflitos ou de mágoas relativas ao ramo dos nossos calçados.
Sempre
fui franzino, mas com aquelas botas eu sentia ter algum poder sobre os
descalços e desprevenidos. Cheguei a planejar algumas ameaças como vinganças de
antigos desafetos, mas recuei de pena das minhas indefesas vítimas, por alguns
nascentes escrúpulos morais e, sobretudo, por zelo com a integridade das minhas
queridas botas.
Enquanto
pude usá-las, foram para mim como que uma parte vital do meu corpo. Mas assim
como chegaram, devem ter partido, porque não tenho lembranças do fim delas, mas
ainda sinto o cheiro, o vigor, a beleza e a potência do meu primeiro kichute,
implacável no futebol e nas corridas, irresistível nos bailinhos diante das
garotas.
