quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Fera
Orides Fontela





Na imóvel floresta um ritmo
oculto pelo Sol pelos ramos
no meio-dia o medo armado o salto

[o tempo irá deflagrar
o seu raio
anulando o limbo
a ausência
o emboscado poder
irá ferir
o branco centro do eterno].

A fera: ritmo em cor
luz e sombra

a fera: ritmo em vôo
melodia.

O perigo da fera: falsa ausência
no desarmado silêncio.

Intensa fera. De súbito, na
selva
o medo salta! Mas aparece o sentido.


Fera na selva

Denilson Cordeiro



"Às vezes o tigre em mim se demonstra cruel
como é próprio da espécie.
Outras, cochila
ou se enrosca em afago emoliente
mas sempre tigre; disfarçado."

[Carlos Drummond de Andrade, "Fera", in: Farewell, p. 60]



A dinâmica do poema inventa uma realidade. Tomado como mecanismo de criação, o âmbito do poema, à semelhança de seus familiares em distintos outros gêneros, presta-se a edificações múltiplas, moduladas pela ciência da sugestão, pela técnica do ornamento e pela habilidade construtiva do poeta, mas também pela disposição, pelo grau de civilidade, de tolerância e de condicionamento da imaginação do leitor.

No conjunto do que é expresso no poema em pauta, insinua-se um sentido primeiro, não menos decisivo do que outros que pudessem surgir de camadas menos evidentes de leitura, um sentido que articula um entrecho, um enredo, uma situação. Mas que, por outro lado, exprime um enigma, um convite, uma provocação. De todos, esperam-se hipóteses de leitura.

Uma fera, seu lugar ["Uma imóvel floresta"], seu tempo ["no meio-dia], sua essência ["ritmo em cor / luz e sombra / a fera: ritmo em vôo / melodia"], seus medos ["o medo armado", "falsa ausência / no desarmado silêncio"] e, finalmente, sua revelação ["aparece o sentido"].

No seu habitat, na imobilidade de uma floresta, o ritmo lento e suave de uma fera se oculta pelos raios do sol e pelos ramos. Sob o sol-a-pino, a plena iluminação natural, o medo cheio de armas imagina o salto da fera, que virá a seu tempo, certo e certeiro. Será então devorado o tempo da espera. O que era vazio imaginado torna-se, súbito, o fato consumado. A existência fica entre parêntesis. O ritmo disfarçado alça vôo e assume sua cadência de ataque. O que parecia inexistente no silêncio da floresta agora é intenso perigo. O medo explode sob o impacto da aparição súbita da fera.

Estaria exposto assim um dos sentidos mais imediatos do poema. Não fossem certas passagens que demandam mais meditação: o que pode significar a palavra-título? Quem no poema sofre "o medo armado"? O que significa mais claramente "anular o limbo" e "o emboscado poder"? O medo de quem salta? E, no final, que sentido aparece?

No poema, ao contrário da prosa de pretensão realista, os sentidos não se prestam facilmente à fixação, as palavras oscilam com as releituras, as combinações disfarçam sutis, e decisivas, coreografias semânticas e abrem-se, vez ou outra, a horizontes insuspeitos.

Retomemos, então, os significados de algumas das palavras-chave do poema. De ferus, no latim, a palavra-título "fera" significa em português selvagem, bravio, indômito; o que não passou por doma, situação anterior ao adestramento; que não foi amansado. Na significação figurativa, os sentidos se expandem, de uma lado a outro, para cruel, mau, malcriado, severo, até hábil, exímio, valente, corajoso. Como sinônimos e variantes, aparecem cobra, cutuba, fadista, gênio, perito, sabichão e taura. O interpositivo "fer", com o mesmo sentido, está presente, em português, por exemplo, em aferir, auferir, conferir, deferir, desferir, diferir, ferir, inferir, interferir, preferir, proferir, referir, transferir, oferecer e ofertar. Aí inclusas todas as palavras decorrentes, como, por exemplo, os substantivos e os adjetivos. Mas o que esses significados sugerem de novo?

Como sabemos, todas as palavras acima têm um sentido convergente de intervenção, interrupção e modificação, cuja raiz mais essencial é a nossa palavra-título. Quer dizer, nesses termos, teríamos um estado de coisas em processo que sofre uma intervenção externa. Um estado de ânimo interrompido, um andamento modificado. No poema, podemos dizer, há basicamente três momentos: 1. a fera à espreita, 2. um raio deflagrado e 3. um sentido que aparece. O esquema básico, portanto, de uma intervenção: um estado de coisas, uma modificação e uma nova situação. E, notemos, de animal feroz a referência fica, digamos, esmaecida. Mas o que isso pode significar? Que intervenção e sobre que estado? Por exemplo, que o significado do título pode estar para além da mera referência a um animal selvagem. Pode se comportar com uma espécie de metáfora de longa duração. Como hipótese, vejamos a que caminhos interpretativos podemos ser levados.

"O medo armado" tem, pelo menos um duplo sentido, estar estruturado ou estar de posse de armas, ainda decorrente disso há o estar pronto para disparar, pronto para o salto. No primeiro caso, o medo é sofrido passivamente; no segundo, no entanto, está prestes a desencadear uma (re)ação. A fera pode sofrê-lo, mas aqui uma possível presa também o poderia.

Limbo vem de limbum que em latim significa orla, debrum, galão, barra de vestido, bordo, extremidade; morada de almas que não tendo cometido pecado mortal estão afastadas da presença de Deus, por não haverem sido remidas do pecado original pelo batismo. Figurativamente é tomado como estado de indecisão, de incerteza, de indefinição; que não tem memória, olvido, esquecimento. Nesse sentido, redimensionaríamos a significação do "anular o limbo" como sendo tirar da margem, afastar da extremidade, da indefinição, da incerteza, devolver à memória, à lembrança, numa palavra, à história.

Uma vez emboscado o poder pelo raio súbito do medo, anuviar-se-á toda tranqüila idéia de eternidade e o tempo reposto sobre os pés do presente demandará atenção ostensiva com o aqui e agora. O ponto de virada é aqui representado pela luminosidade e pela melodia deflagradas sobre a pele do poder de uma indefinição que tendia à eternidade.

O medo está enfibrado no núcleo semântico do adjetivo meticuloso que, dentre outros sentidos, significa a qualidade daquele que tem escrúpulos, cuidadoso, preso a detalhes, minucioso; que demonstra cautela, precaução; tímido. Ora, mas que timidez é essa que salta? Terá superado a si própria?

O desfecho parece sugerir um sentido menos literal para o desenvolvimento do entrecho. Depois do perigo da fera, do medo armado, a iminência de um salto e a conclusão narra a aparição de um sentido. A tomarmos a sugestão da metáfora, relativizamos os significados mais estritos para, com isso, podemos reler o poema na chave da sugestão. E o que disso resulta como possível interpretação? Vejamos.

Retomemos o enredo sob as novas considerações. No seu habitat, na imobilidade de uma floresta, um ritmo é ocultado pelo sol e pelos ramos. Sob o sol-a-pino, a plena claridade, o medo cheio de armas e o salto cujo raio anulará a indefinição e desestabilizará o poder atemporal estabelecido. A existência sai dos parêntesis e repõem-se em chave histórica. O ritmo alça vôo e assume sua cadência de ataque. O que parecia ausente se torna intenso perigo. Súbito, o medo explode sob o impacto da aparição do sentido.

Há um tanto para a imaginação, para a fruição e para o gosto do leitor, mas dizer mais do que isso, na tentativa de falar a uma racionalidade, digamos, mais estrita, como seria a da prosa, seria temerário, pois, dada a sua natureza, o poema, se narra, o faz na sugestão; se esclarece, realiza-o na insinuação; e só demanda a racionalidade que pode por seus próprios meios inventar.